A manhã não parecia muito animadora. Uma pequena quantidade de nevoa cobria as redondezas da Ilha Sunburst. O tempo por ali não se mostrava dos melhores. As plantas estavam cobertas por diversas gotículas de água, graças à garoa que caiu durante a noite. Os Pokémons das redondezas não pareciam nem um pouco dispostos a mostrar-se. Grupos de Oddish escondiam-se entre os arbustos da floresta, tentando aquecer-se. Nos galhos das árvores, os ninhos estavam abarrotados de Pidgeys que quase não cabiam ali.
No meio da nevoa uma silhueta feminina se revelava. Uma garota loira que tremia de frio. Seu Kigurumi assemelhado a uma ave marrom estava parcialmente molhado e pesado. Lúcia havia se perdido mais uma vez durante a noite, tudo isso graças a Gengar que voltara a casa abandonada. A moça não conseguia se orientar direito na escuridão, e num momento de desespero, passou a noite ao relento debaixo de uma árvore. Osíris revelou-se muito fiel, ficando ao lado da treinadora durante todo o tempo. Após as revelações na velha casa, ambos pareciam ter começado a se entender melhor.
-Osíris, da próxima vez que fizer isso de novo, juro que não sigo você! –Balbuciou a loira, olhando para o Pokémon com preguiça.
-Gar. - Respondeu o fantasma, em seguida caindo na gargalhada.
Os dois deram um rápido sorriso, continuando a caminhar pela estrada. A visão era um pouco atrapalhada, mas com um pouco de esforço conseguiram reencontrar a Sunburst Town. Poucas pessoas circulavam pelas ruas, as quais mostravam-se desanimadas. Lúcia passava quase despercebida por eles, que não davam atenção a sua pessoa.
A loira tentava ser discreta, já que sua aparência naquele momento não era das melhores. Osíris por sua vez assustava qualquer um que o olhasse demais e em seguida gargalhava com suas reações. A moça às vezes o repreendia com baixos sermões, que não adiantavam muito. Toda aquela tristeza e isolamento por parte de Gengar pareciam ter sumido durante a noite... O fantasma parecia disposto a abrir os braços para um novo futuro, uma nova história.
Não demorou para que achassem novamente o Centro Pokémon, que era a única construção vistosa em toda a vila. A moça adentrou de modo normal, até perceber que na recepção alguns treinadores se concentravam. Seu rosto ficou tão vermelho quanto um pimentão, e timidamente começou a subir as escadas. Os olhares foram direcionados a ela, que chamava a atenção por sua vestimenta e as condições momentâneas. Osíris não segurava a risada, achando muita graça de tudo aquilo.
-Nunca mais faço uma coisa dessas... Dá próxima, chamo a Julia, assim a situação ameniza. –Balbuciou ela, tentando esconder o rosto com as mãos.
Subiu rapidamente para o segundo andar, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Andava nas pontas dos pés, e abriu a porta com cautela. Antes que pudesse adentrar o quarto, ouviu um ranger passageiro e observou um dos cômodos ao lado. Helena estava lá. Encostada na parede, observando a garota com um riso sínico no rosto.
-Onde esteve na noite passada? Vi você sair às pressas... Por acaso houve uma fuga das galinhas? Você e seus Kigurumis sempre tão infantis... –Debochava a rival de modo provocativo.
-Para a sua informação eu estava... Ah não é da sua conta! –Retrucou ríspida, batendo a porta em seguida.
Lúcia resmungava com fúria dentro do quarto, batendo o pé com força no chão e socando o ar. Gengar sentou-se na cama, sendo retornado para a Pokeball em seguida. A moça começou a arrumar suas coisas, recolheu algumas roupas que estavam jogadas no chão, o pergaminho e outros pertences. Enquanto colocava tudo na bolsa, levou um susto. Percebeu que dessa vez algo a mais faltava: ovo que ganhou em Valencia.
O desespero tomou conta de si novamente. Como se já não bastasse um Gengar fujão, agora o ovo havia sumido também. A loira começou a procurar pelo quarto, mas infelizmente não achou nada. Por um instante lembrou-se de sua amiga Julia. A mesma mostrava-se muito interessada no filhote que viria a nascer, e Lúcia pensou na possibilidade da amiga ter entrado no quarto durante a noite e ter pegado o ovo.
-O ovo deve estar com ela... Não vou me preocupar... –Dizia um pouco tensa, ainda em duvida quanto ao paradeiro do filhote que carregava. –Um banho! Isso! Um banho vai me deixar relaxada.
Lúcia pegou uma toalha branca e seguiu para o banheiro. Entrou e tirou seu Kigurumi molhado, deixando-o dentro da pia. Ligou a torneira e encheu a banheira com água bem quente. Um pouco de fumaça formou-se ali, e quando entrou em contato com o vidro gelado, deixou-o embaçado. A moça tocou de leve a superfície da água, sentindo que estava na temperatura ideal.
-Perfeito... É disso que eu preciso!
Lúcia entrou na banheira, afundando-se na água morna e relaxante. Fechou os olhos e relaxou, olhando para o teto. Tudo parecia correr bem, ela esquecia aos poucos de alguns de seus problemas, quando de repente ouviu paços desengonçados dentro do banheiro. Assustada, olhou em volta. Não encontrou nada, apenas percebeu que a porta havia sido aberta. Receosa mexeu-se na banheira, mas acabou pensando que tinha sido o vento.
Continuou com seu banho matinal relaxante. Devagar mexia a água com as mãos, para se distrair mais ainda. Sentiu algumas bolhas se formarem na banheira, o que era estranho. A moça retesou seu corpo para trás, observando um estranho movimento que ocorria a frente. Um pequeno ser amarelo ergueu-se na superfície, gritando desesperado, como se estivesse se afogando. Lúcia levou um grande susto, e pulou para fora da banheira, cobrindo-se com a toalha.
-Que diabos é isso? Seu tarado! –Gritava ela envergonhada. –Espere ai...
A moça percebeu que aquilo não passava de um Pokémon curioso. O pequeno ser amarelo parecia se afogar na banheira, e só então a treinadora agarrou-o, tirando de lá e depositando-o gentilmente no chão. Ainda estava um pouco assustada por causa de toda a agitação.
-V- Você... Me assustou amiguinho... Não faça mais isso.
A treinadora sorriu e observou melhor a criatura que a assustara. Um pequeno ornitorrinco amarelo, com um olhar disperso. Sua expressão era de distração, como se estivesse pensando em algo que não se situava ali. Suas penas eram amarelas e no topo de sua cabeça haviam três pequenos tufos de “pelo” preto. Um bico longo e “garras” em vez de asas. Mas havia algo de incomum no pequeno. Uma proteção de vidro cilíndrica rodeava sua cintura, como se estivesse prendendo-o. E aquela peça lhe era muito familiar...
-Não posso acreditar... Quer dizer... Essa proteção cilíndrica estava no ovo e... VOCÊ É O OVO! QUER DIZER, VOCÊ CHOCOU! UM PSYDUCK! MEU ARCEUS! –Disse a garota surpresa.
Lúcia ajoelhou-se com cuidado, esticando suas mãos na direção de Psyduck. O ornitorrinco amarelo apenas acompanhou seus movimentos com o olhar. A moça delicadamente começou a puxar a proteção de vidro para cima, tentando tira-la. Com um pouco de esforço conseguiu. Lúcia ainda observava a criatura surpresa. Não esperava que o ovo chocasse tão rápido, e nem que dele nascesse um Pokémon tão... Peculiar.
-Oi pequeno... –Balbuciava ela, tentando se apresentar. –Eu sou Lúcia, sua treinadora... Fui eu quem cuidou de você enquanto ainda era um ovinho bem pequenininho. É um grande prazer conhecê-lo... Desculpe pelo mau jeito.
Psyduck apenas a observou. Ambos se fitaram por longos quinze segundos, até que o ornitorrinco correu desengonçado para os braços de sua treinadora. O patinho feio parecia muito feliz agora. A moça ainda não sabia, mas Psyduck a via como uma mãe. Talvez seus cabelos loiros lembram-se as penas de uma Psyduck mais velha. Lúcia o acolhia com carinho, mesmo que não parecesse muito contente.
-Espere ai... Te procurei por todo o quarto, mas não achei. Onde tinha se escondido? –Indagou ela curiosa.
Psyduck demorou um pouco para processar todas as informações em sua cabeça confusa, até que entendeu e saiu do banheiro. A garota apenas o seguiu. O ornitorrinco apontou para debaixo da cama, onde estava também a tampa arredondada que protegia o ovo anteriormente. Lúcia deu uma pequena risada, imaginando o sufoco pelo qual Psyduck havia passado.
-Vamos pequeno... Preciso mostrar-lhe aos meus amigos! –Empolgou-se ela, pensando em como todos reagiriam.
Lúcia trocou de roupa, arrumou tudo novamente e com Psyduck em seus braços saiu do quarto. Todos os outros já tinham deixados seus aposentos, e arrumadeiras começavam seu trabalho. A loira desceu para o primeiro andar, encontrado seus amigos na recepção, sentados e conversando. Julia lhe direcionou um sorriso radiante, e em seguida estagnou surpresa em ver o que a amiga tinha em seus braços.
-Nossa! Lú-chan! Onde é que conseguiu essa coisinha mais Kawaii? –Indagou à aspirante a pesquisadora, fazendo voz de criança e algumas caretas amigáveis.
-Esse carinha aqui nasceu do ovo que a tia Ivy me deu... Acho que foi... Durante a noite. Encontrei-o na banheira enquanto tomava banho e... Melhor deixar certos detalhes para lá. –Contou a treinadora, sorrindo sem jeito.
-Ele é a sua cara Lúcia... Tem cara de idiota. –Debochou Helena rindo em seguida.
-Você é uma indecente Helena... –Balbuciou Julia irritada.
-Não fiquem irritados, a Helena tem esse jeitão dela, mas no fundo no fundo é boa pessoa. –Disse Marcos, tentando amenizar o clima.
-Então gente, vamos? O contest na Ilha Mandarin do Norte começa essa tarde. –Disse Ryan empolgado.
-Simbora cambada! Vem Marcos-kun, vamos ficar lado a lado o tempo todo! –Completou Julia, abraçando o rapaz de lado.
Juntos os cinco deixaram o Centro Pokémon. O clima do lado de fora continuava desagradável. A neblina parecia ficar mais densa, o que viria a incomodar ainda mais no resto do dia. O porto não ficava muito distante dali. Os jovens se apressaram, com medo de perder a balsa, que passava pela ilha apenas duas vezes ao dia. Uma pela manhã, e outra ao entardecer. Para a sorte do grupo, a balsa da manhã acabava de chegar.
Algumas pessoas embarcavam naquele momento, assim como os jovens fizeram. A balsa era espaçosa e quase vazia, assim teria mais oportunidades para momentos descontraídos. Lúcia ficou próxima das grades, com o pequeno Psyduck em seu colo. O ornitorrinco parecia curioso, mas ao mesmo tempo muito distraído. A moça mostrava-lhe as águas e dizia a ele como o mar era incrível. O pequeno parecia ter um pouco de vontade de poder nadar, mas era tão atrapalhado que poderia se afogar.
Num dos cantos da balsa, Julia imitava uma épica cena de um filme conhecido como Titanic ao lado de Marcos. A moça estava com os braços abertos e olhos fechados, dizendo com um tom apaixonado:
-Oh meu amor! Meu gato Marcos! A metade do meu abacate! Ficaremos juntos pela eternidade... Amore mio!
-Heheh... Você é uma figura Julia. –Respondeu ele, entrando na “brincadeira”.
Helena permanecia quieta e séria, e Ryan ao seu lado. O rapaz tentava ser simpático e puxava conversa, mas a morena tinha poucas palavras e o fazia ficar sem graça rapidamente. Pelo jeito a manhã navegando passaria tranqüila. A Ilha Mandarin do Norte ficava um pouco distante, por isso seria preciso paciência. Mais ou menos uma hora na balsa.
Enquanto navegavam, Lúcia decidiu se sentar. Aproveitou a oportunidade para liberar Pichu e seus outros dois companheiros. Apresentou o novato Psyduck para a equipe, e o mesmo foi muito bem recebido. Gengar aproveitou para melhor se enturmar, sendo que agora já interagia melhor com Pichu e Primeape. Naquele momento de distração, Lúcia nem percebeu que Psyduck havia começado a explorar o convés. O ornitorrinco andava com as mãos na cabeça, tentando entender tudo aquilo a sua volta. Mas ainda era pequeno e inexperiente, por isso perdeu-se facilmente.
Agora Psyduck mudava sua expressão de distração para algo desesperado. Olhava em volta, vendo muitos desconhecidos e nenhum que se parecesse com Lúcia. O ornitorrinco começou a correr desesperado, indo pelo lado oposto em que estava sua treinadora. Lágrimas formavam-se em seus olhos. Psyduck acabou trombando nas pernas de uma garota, e foi ao chão. A garota também caiu, já que no exato momento estava a caminhar.
Era uma garota de aproximadamente doze anos de idade. Pele alva, cabelos longos, lisos e ruivos. Olhos vermelhos e expressivos. Usava um vestido branco com algumas listras creme na lateral. Carregava uma mochila nas costas, e esta tinha a forma de um Teddiursa. Em seu pescoço havia um pequeno colocar, e um pingente em forma de pena prateada.
-S- S-Su... Sumimasen! –Gritou a garotinha ruiva, começando a chorar em seguida.
-Psy- Psy! –Continuou Psyduck, que agora também estava aos prantos.
Com toda aquela confusão, Lúcia percebeu a ausência de seu novo Pokémon. Logo previu o pior. Retornou seus parceiros e saiu correndo, indo em direção de um pequeno aglomera mento de pessoas. Abriu caminho as pressas, vendo que ali estava Psyduck e a garota ruiva. Ambos choravam muito, mas não se sabia muito bem o motivo.
-Oh meu Arceus! O que aconteceu aqui? –Perguntava a garota assustada, enquanto pegava Psyduck no colo. –Com licença mocinha... Meu Psyduck fez alguma coisa?
-Sumimasen! Sumimasen! –Repetia a ruiva ainda caída, e fazendo uma reverencia. –Não queria causa transtornos! SUMIMASEN!
A garota ruiva parecia desesperada, como se tivesse causado algo maior e mais preocupante. Chorava desesperadamente, e repetira a palavra “Sumimasen” seguidas vezes. Lúcia tentava acalmá-la, mas não conseguia. Seus amigos logo foram até lá, o que só causou mais indagações. Depois de alguns minutos de desespero, Ryan conseguiu fazer a garotinha ruiva parar de chorar. Guiou-a até um local onde se assentou. Ofereceu-lhe um lenço, e depois que a mesma limpou suas lágrimas o coordenador calmamente perguntou:
-O que aconteceu? Você se machucou? Psyduck causou alguma confusão? –Quando terminou de falar, a primeira reação da garota foi um rápido soluço. Lágrimas novamente tomaram seu rosto. –E- Ei... Acalme-se. Pode nos contar.
-Eu... Eu... Só consigo atrair confusão. Eu estava andando pelo barco quando... Tropecei... E o coitadinho deve ter se machucado... Sou um amuleto de má sorte! –Contava a ruiva de cabeça baixa. –Sumimasen! Sumimasen! Não queria causar transtorno.
-Está tudo bem. Psyduck não se machucou, e vejo que você também não. Sem preocupações. Pode se acalmar. –Sorriu Lúcia amigavelmente. –A propósito, me chamo Lúcia. E esses são meus amigos. Aquela loirinha ali é a Julia, esse o Marcos, ele é o Ryan e essa outra você pode chamar de vaca.
-Quis dizer Helena... Eu me chamo Helena. –Corrigiu a morena com um olhar mortal direcionado a Lúcia.
-M- Muito prazer. Me chamo Jasmine Mesut. –Apresentou-se de modo tímido. –Desculpem se causei alguma confusão... Mas é que... Eu sou um pouco distraída e desastrada.
-Não se incomode. Está tudo bem. Aliás, não causou transtorno nenhum, muito menos confusão. Pelo contrário. Nos proporcionou um momento bem divertido. –Riu Marcos.
-S- Sério? –Indagou surpresa. Novamente, seus olhos avermelhados tornaram-se marejados.
-Own! Olha só como a Jasmine-chan é Kawaii! Podemos ficar com ela? Vai deixa Lúcia! Prometo que cuido bem dela! Ryan, fala com ela! –Pedia Julia com os olhos brilhantes.
-Então Jasmine, você é uma treinadora? –Perguntou Helena educadamente, tentando algo mais descontraído para que a ruiva não ficasse com medo de seus companheiros.
-Eu sou uma coordenadora. Estava indo para a Ilha Mandarin do Norte. Participarei da competição. –Contou ela com um sorriso tímido em seu rosto bonito.
-Que coincidência! –Exclamou Marcos. –Eu e o Ryan também somos coordenadores e estamos indo para lá! Por que não nos acompanha? Vai ser divertido! Ter mais um no grupo não é má ideia.
-Ir com vocês? Mas... E se eu causar algum problema? –Perguntou Jasmine receosa.
-Aaah nós somos a trupe do problema linda! Não se preocupe. –Respondeu Julia sorridente.
-T- Tudo bem então...
Jasmine sorriu e se levantou, acompanhando os jovens até o outro lado da balsa. Na metade do caminho, a ruiva acabou tropeçando em seus próprios pés e caindo em cima de Lúcia. Em conseqüência, o pobre e confuso Psyduck foi esmagado pela treinadora, que ainda o levava no colo. Julia e Marcos as ajudaram a se levantar, mas a garotinha ruiva desencadeou mais uma sequencia de choro.
-Semimasen! Causei confusão outra vez! Semimasen! Semimasen! –Choramingava Jasmine, curvando-se em direção de Lúcia.
-Kawaii! –Gritou Julia, observando a inocência da ruiva.
-E- Está tudo bem! Calma, calma! –Pedia Lúcia tentando amenizar a situação. As poucas pessoas que haviam na balsa olhavam para eles. A treinadora ficava constrangida com a situação que se estabelecia. –Vish! Já vi que vai ser difícil fazer essa garota parar de chorar e... Espera! Jasmine, você gosta de batalhas?
-B- Batalhas? Um pouco... Sou melhor com apresentações. –Contou, enxugando suas lágrimas. Mal percebia ela que Lúcia fazia de tudo para distrair sua atenção.
-Quer batalhar comigo? Digo assim nos distraímos um pouco e esquecemos de todo esse... Transtorno. –Disse a loira sorrindo.
-Tudo bem. Acho que não tem problemas e uma batalha rápida. –Respondeu com um tom inseguro.
Lúcia explicou como a tal batalha ocorreria. As duas posicionaram-se num canto mais espaçoso na balsa. Usariam apenas um Pokémon. A loira pretendia manter Jasmine ocupada, distraída na verdade, para que assim não começasse a lamentar por tê-la derrubado e tudo mais. A ruiva era um pouco desastrada, e achava que tudo o que fazia acabava atrapalhando ou chateando os que estavam a sua volta. Lúcia deixou Psyduck com Julia, que apertava as bochechas do ornitorrinco repetindo inúmeras vezes à palavra “Kawaii”. Marcos ofereceu-se para ser o juiz da partida.
-A batalha será de um contra um. Quando sentirem-se preparadas, comecem. –Confirmou Marcos.
-Tudo bem! Osíris eu escolho você! –Disse Lúcia, lançando para o alto a esfera bicolor.
O fantasma apareceu novamente na balsa. Sua presença parecia causar calafrios nas pessoas que assistiam de longe. Mesmo estando exposto a luz do sol, Gengar era muito poderoso. Jasmine procurava em sua bolsa por uma Pokeball, até retirar de lá uma esfera diferente e que chamou a atenção dos treinadores. A parte de cima era azulada, com dois detalhes vermelhos mais acima. Era uma Great Ball.
Jasmine lançou-a para cima, e quando o feixe de luz depositou-se no convés, a balsa inteira balançou. Uma criatura colossal apareceu na frente dos jovens. Um urso, alto e de pelagem marrom. Em sua barriga havia um circulo amarelo. Possuía garras capazes de retalhar os oponentes. Dentes que pareciam saltar para fora de sua boca. Um raro Ursaring.
-Ursaring, o Pokémon urso. Costumam hibernar durante todo o inverno. Não perdoa aqueles que o incomodam, atacando até mesmo os inimigos que não são capazes de se defender. Usa suas garras para impor respeito nos oponentes. –Informava a PokeDex de Lúcia.
-Meu Arceus! E eu pensando que essa Jasmine teria no máximo um Pidgey. –Sussurrou Julia.
-Nunca julgue um treinador apenas pelas aparências. –Retrucou Helena, calando-se em seguida.
-P- Pode começar... –Balbuciou Lúcia, surpresa em ver o adversário.
-Ok! Pooh utilize Thrash! –Ordenou Jasmine.
-Pooh? Que raios de nome é esse?
Com um rápido movimento de investida, o gigantesco Ursaring partiu para cima de Gengar. Desferia velozes e poderosos socos e até mesmo alguns chutes. Osíris desviava com agilidade, mas mesmo com toda sua experiência, foi acertado e jogado contra o chão. Aquilo acabou irritando o fantasma, que levantou num salto e lançou contra o urso uma poderosa Shadow Ball. A esfera sombria acertou-lhe no tórax, mas Ursaring continuou de pé, firme e forte.
-Osíris vamos lá! Ataque agora utilizando Shadow Punch! –Comandou Lúcia.
-Pooh desvie e depois Hammer Arm. –Ordenou à ruiva, com uma voz tremula. Não parecia ter muita confiança no que estava fazendo, mesmo sabendo que tinha uma verdadeira arma em mãos.
As garras obscuras de Osíris tornaram-se envoltas por um tipo de faíscas púrpuras. Em seguida, como num passe de mágica, dois punhos sombrios apareceram no ar. O ataque foi em direção de Ursaring, que por ser grande demais, acabou sendo acertado. Para tentar amenizar o impulso, colocou seus braços na frente. Mas o Shadow Punch não foi forte o suficiente para causar-lhe danos, apesar da força que fora lançado.
Ursaring reagiu bruscamente. Seu braço esquerdo começou a brilhar envolto por uma luz branca. Partiu para cima de Osíris, e em seguida desferiu um forte soco. O fantasma parecia não ter sofrido nada com aquele ataque, apesar de ter sido forte o suficiente para fazer a balsa tremer. Osíris saltou pronto para atacar mais vezes. Seu sorriso debochado era o suficiente para irritar Ursaring. O urso marrom deu um forte rugido, tentando intimidar Gengar. O fantasma sentiu medo, mas não demonstrou. Apenas riu ao ver o adversário tão estressado.
-Pooh-chan utilize agora Scratch! -Ordenou a ruiva.
-Ataques normais não funcionarão contra nós. -Balbuciou Lúcia.
O urso partia desferindo diversos arranhões em seu oponente, que desviava. Algumas vezes conseguiu acertar, mas nada muito efetivo. Gengar ainda revidava com algumas Shadow Balls, mesmo que não fossem surtir efeito algum. Era apenas por diversão. Osíris fazia questão de brincar com seus oponentes. Lúcia não protestava, deixava que o fantasma se "divertisse" um pouco. Mas só então ordenou-lhe:
-Use outra vez o Shadow Punch.
-Acabaremos com isso agora! Pooh Faint Attack!
Dessa vez Osíris estava em uma enrascada. Seus movimentos acabavam sendo limitados. O soco das sombras se quer arranhou a pelagem de Ursaring. Porém aqueles seriam os últimos movimentos da batalha. O Faint Attack por ser do tipo Dark, viria a causar danos em Gengar. O golpe foi bem sucedido, e após ele, Osíris permaneceu caído e fora de combate. Ursaring grunhiu alto, demonstrando felicidade em sua vitória. Gengar por sua vez, levantou-se ainda atordoado e machucado. Olhou para Lúcia, e desferiu um sorriso em seu rosto.
-Está tudo bem amigo. Mostrou que é bem forte, e o mais importante: está me obedecendo. Obrigada por tudo. –Disse, retornando-o.
Seus companheiros elogiaram a batalha, vendo que agora trabalhava melhor com seu companheiro Gengar. Lúcia caminhou para perto de Jasmine, que jazia de pé. A cabeça baixa, enquanto que seu Ursaring, apelidado carinhosamente de Pooh, vangloriava-se pela vitória. Exibia seus músculos e rugia, causando medo na balsa.
-Hey Jasmine, você é uma ótima treinadora. Aposto que já deve ter ganhado muitos contests. –Elogiou Lúcia. A moça ficou atônita ao ouvir os soluços da ruiva, que agora chorava. Todos se assustaram. Vê-la chorar sem motivo era algo estranho.
-Semimasen! Eu ganhei de você Lúcia-san! Semimasen! –Lamentava ela aos prantos.
-E- Espere... Está chorando por que venceu? Não faça isso... Está tudo certo Jasmine.
-M- Mas eu machuquei o Gengar-kun, e... Semimasen!
A garotinha chorava sem motivo outra vez, provavelmente arrependida de ver Lúcia perder. Ryan coçava a cabeça confuso enquanto os outros apenas observavam a situação de tamanha estranheza. O coordenador agachou-se na altura de Jasmine, erguendo seu rosto para que se encarassem.
-Por que chorar? Não é preciso ficar pedindo tantas desculpas de uma vez. Você não causa mal algum. Talvez sua inocência a obrigue a fazer isso. Jasmine, você não é um estorvo! Tem muita capacidade, e nesse contest quero muito enfrentá-la. –Disse Ryan. Suas palavras pareciam encorajar a pequena chorona.
-Ryan-kun... Arigatow-me! –Balbuciou a ruiva, abraçando o jovem. –Sabia que você parece meu irmão mais velho? Posso te chamar de irmãozão?
-C- Claro... –Concordou sem graça.
A garotinha ruiva retornou seu gigantesco Ursaring e abraçou o braço de Ryan. As coisas finalmente começaram a melhorar. O resto da manhã seria tranqüilo, isso é se Jasmine ou outro alguém não causasse mais transtornos. Conhecer a garota acabou proporcionando aos jovens apenas mais momentos de estranheza. Ao longe já podiam ser vistos majestosos prédios se erguendo, o que anunciava a chega de uma das três maiores cidades das Ilhas Laranja...
O dia trazia muitas surpresas para nossos aventureiros. Lúcia agora possuía mais um membro em sua equipe, e esse só a tornava mais estranha e variada. Psyduck ainda mostraria ser um grande guerreiro. E a pequena Jasmine? Mesmo sendo tão poderosa, conseguirá mostrar do que é capaz? Tudo isso, está bem próximo de se revelar...
...
Vocabulário
Semimasen: seria uma forma de pedir desculpas, em Japonês é bastante usado.
Kawaii: seria algo referente a fofo, bonitinho.